Acessibilidade na comunicação: o alcance da notícia de forma unânime

Quando escutamos alguém falar sobre direito à acessibilidade, automaticamente pensamos na arquitetura de um prédio. Entretanto, a inclusão vai muito além de uma rampa ou elevador. Em um restaurante, por exemplo, um rapaz surdo pediu para o garçom explicar um prato do cardápio. Mal preparado e sem conseguir estabelecer uma comunicação, afastou-se da mesa e trouxe ao surdo um cardápio em braile que o estabelecimento oferecia. Sim, a acessibilidade na comunicação também é um ponto a ser discutido.

O que nos faz abrir um parênteses para discutir sobre o quanto nosso país, e por que não dizer, o mundo, é inclusivo. Devemos entender que a deficiência é produto de dois fatores: a limitação funcional da pessoa, que varia de 0 a 10; e o número de barreiras que o ambiente possui (DEFICIÊNCIA = LIMITAÇÃO x BARREIRAS). Olhando para o relato acima, se o garçom soubesse a Língua Brasileira de Sinais (Libras), a barreira que o surdo encontraria seria “0”. Sabemos que qualquer número multiplicado por zero é igual a zero, ou seja, nenhuma deficiência seria percebida.

A dificuldade na comunicação não se limita apenas em estabelecimentos de convívio social. Por lei, veículos de comunicação devem fazer com que suas notícias cheguem de forma unânime a todos.

A imprensa e a acessibilidade na comunicação

Fazer uso de audiodescrição, intérprete e legenda em telejornais, por exemplo, são recursos facilitadores para que as informações cheguem claras aos cegos e surdos sem precisarem recorrer a outros meios, como a internet. E sejamos sinceros, mesmo em 2018, nem todos possuem acesso.

A tecnologia ajudou muito neste aspecto, os canais digitais passaram a oferecer a audiodescrição em alguns de seus programas. Como descrever em áudio demanda tempo, o recurso para programas ao vivo torna-se algo difícil de colocar em prática. Uma saída para que as informações cheguem sem barreiras é que elas sejam faladas e não apenas mostradas em tela. “Para entrar em contato conosco, ligue para o telefone indicado”, percebeu que esta não é a melhor tática?!

Nem vamos entrar na questão dos jornais em braile, nada fáceis de encontrar.

Para os surdos, o closed caption é uma boa opção. Ainda assim, para muitos não é a solução mais viável, uma vez que a Libras é a sua primeira língua. Para exemplificar, quando um médico pede para que uma pessoa surda tome um remédio depois do almoço, na verdade, esta pessoa tomará o remédio e depois irá almoçar. Isso não significa que ela não entendeu seu médico. É que a construção gramatical da Libras coloca as palavras na ordem em que devem acontecer. Logo, se o médico usou a palavra “remédio” antes da palavra “almoço”, o surdo compreende que o remédio deve ser tomado antes do almoço.

Mas então, qual seria a frase correta a ser dita pelo médico? Simplesmente: “Almoce e depois tome o remédio”.

Para os jornais digitais, um recurso viável é a utilização do Hand Talk. Produzido por brasileiros, o aplicativo abre uma janela com um personagem que traduz textos e áudios que estão na página para a Libras.

Redes sociais inclusivas

As redes sociais são, cada vez mais, as fontes de informação preferidas pelas pessoas.  Por isso, como já afirmado no artigo “Onde está a crise do jornalismo?“,  os veículos de comunicação passaram a investir nessas mídias e fazem delas mais um canal com a sociedade.

Entendendo que em seu público também estão pessoas com deficiência, tanto o Twitter quanto o Facebook adaptaram suas funções para que todos consigam acessar e usar seu site. As teclas “J” e “K” são atalhos na navegação para cima e para baixo pelo feed de notícias do Facebook, recurso para quem tem dificuldade em utilizar o mouse.

Por sua vez, o Twitter oferece um espaço além dos 280 caracteres para descrever imagens. Como os leitores de tela, utilizados por pessoas cegas ou com baixa visão, não fazem leitura de fotos e gifs, colocar uma descrição ajuda a identificar esses arquivos. Apesar do Facebook não ter este recurso, é possível usar #pracegover e logo em seguida descrever a imagem do post. A Prefeitura de São Paulo aderiu à essa campanha online em abril do ano passado.

Aos surdos, o Facebook adaptou seus vídeos para que tenham closed caption, inclusive nas transmissões ao vivo.

Estas são algumas ferramentas que servem de exemplo para a acessibilidade na comunicação e de um modo geral.

O assunto na imprensa

Além de pouca acessibilidade na comunicação, pouco se fala desse assunto. E quando tratado, vitimizam ou superestimam a pessoa com deficiência e utilizam terminologias que acabam mais por ofender do que representar pessoas com deficiência.

“Surdo-mudo”, “portadores de deficiência”, “portadores de necessidades especiais”, “pessoas especiais”, “inválidos” ou até mesmo “deficientes” são exemplos de termos que NÃO devem aparecer em seu texto. A repetição de “pessoas com deficiência” está alta? Verifique as dicas que a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência oferece em seu site.

E nada de se referir às pessoas que não tem deficiência como “normais”!

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